domingo, 23 de outubro de 2011

Sossega, coração!


    Sossega, coração! Não desesperes!

    Talvez um dia, para além dos dias,

    Encontres o que queres porque o queres.

    Então, livre de falsas nostalgias,

    Atingirás a perfeição de seres.

    Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!

    Pobre esperença a de existir somente!

    Como quem passa a mão pelo cabelo

    E em si mesmo se sente diferente,

    Como faz mal ao sonho o concebê-lo!


    Sossega, coração, contudo! Dorme!

    O sossego não quer razão nem causa.

    Quer só a noite plácida e enorme,

    A grande, universal, solente pausa

    Antes que tudo em tudo se transforme.

    Fernando Pessoa, 2-8-1933.

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